Ao celebrar a 30ª edição, o projeto Ofício da Palavra traz a Belo Horizonte o consagrado artista plástico e premiado escritor Nuno Ramos, um dos nomes mais originais da literatura brasileira contemporânea. No dia 31 de agosto, no Museu de Artes e Ofícios, ele conversa com o público sobre seus múltiplos ofícios e depois autografa o novo título - "O mau vidraceiro" -, que acaba de sair pela Editora Globo. A entrada é franca.
Paulistano, Nuno Ramos trafega por múltiplas plataformas criativas - ele é escultor, pintor, desenhista, cenógrafo, ensaísta e diretor de três curtas-metragens. Cursou filosofia na USP (1978-82), trabalhando paralelamente como editor das revistas Almanaque 80 e Kataloki. Reconhecido desde os anos 1980 como um dos principais criadores brasileiros no campo das artes plásticas, Nuno vem traçando um caminho de destaque também na literatura. É autor de Cujo, 1993; O pão do corvo, 2001; Ensaio geral, 2007; e Ó, 2008, com o qual foi ganhador do Prêmio Portugal Telecom Literatura de 2009.
O lançamento: O mau vidraceiro
Em meio à montagem de duas exposições - uma no MAM, no Rio de Janeiro, e a outra na Bienal Internacional de São Paulo -, Nuno vem à capital mineira para apresentar a sua mais recente incursão na literatura - "O mau vidraceiro". O título, retirado de uma das narrativas de Baudelaire nos Pequenos poemas em prosa, é uma reunião de 61 contos em que o dublê de artista e escritor Nuno Ramos, maduro no domínio dos seus recursos estilísticos, literários, leva a arte da micronarrativa a um grau de apuro poucas vezes alcançado.
Se na diminuta dimensão de parte dos textos o livro pode ser comparado à obra de um Dalton Trevisan, a prosa de Nuno Ramos se diferencia, primeiro, por um maior rigor textual, distante do coloquialismo e da "prosa suja" de colorido urbano-suburbano da linhagem do próprio Trevisan ou de Rubem Fonseca e seus seguidores; segundo, por uma temática mais variada, que vai da realidade mais imediata à metafísica, passando pela política; terceiro, por um estilo necessariamente mais multiforme, a fim de dar conta de tal variedade. Assim, cenas urbano-existenciais como "A glória" convivem com belas prosas poetizadas como "Ninguém", que por sua vez convivem com a miséria escatológica de "A velha", com a metalinguagem desiludida de "O deus leitor", a releitura cortazariana de "Regras para a direção do corpo" ou a fabulação irônica de "Pantomima". Também nas dimensões há variação, pois os contos podem ser verdadeiramente minúsculos, com apenas um parágrafo, ou conter "extensas" três ou quatro páginas.
O que não varia é a referida precisão textual de um autor atento às minúcias do estilo - tanto mais relevantes quanto menor a extensão do texto ¬- assim como à sua fluidez - o que garante aos contos sua característica mais própria de uma peça de prosa ficcional cujo todo pode e deve ser apreendido pelo leitor como um poema no campo literário ou como uma forma-volume no campo escultórico.
Tudo somado, à vasta genealogia dessa arte essencialmente moderna que é a micronarrativa (Baudelaire, Tchecov, Kafka, Cortázar, Trevisan etc.), com suas características de velocidade e fragmentação - mas que também inclui a antiga arte das pequenas fábulas e parábolas tradicionais -, deve-se ainda acrescentar, no caso de Nuno Ramos, o nome de Gustave Flaubert, o escritor da "palavra exata" ("le mot juste"), que "esculpia" cada parágrafo como um poeta apura um verso, sem porém perder a necessária referência da prosa, linguagem "realista" por excelência.
SERVIÇO Ofício da Palavra com Nuno Ramos Local: Museu de Artes e Ofícios - Praça da Estação Data: 31 de agosto Horário: 19h30 Entrada franca Telefone: 3248-8600 |
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